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Acenda um e viaje

Cada qual com sua peculiaridade, mais de uma dezena de países legalizou o consumo recreativo da cannabis. Para qual você gostaria de se mudar?

por Artur Tavares Atualizado em 17 set 2021, 16h00 - Publicado em 7 set 2021 19h58
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Clube Lambada/Ilustração

lanta ancestral na nossa natureza, a cannabis existe desde muito antes das proibições humanas tacanhas privarem-na de usos cerimoniais, religiosos, medicinais e recreativos. Fósseis encontradas na região onde hoje fica o Cazaquistão apontam que espécies de maconha já estavam na Terra há 38 milhões de anos, e foi daquela área da Ásia Central que ela se espalhou por todo o planeta.

Depois da Era do Gelo, as migrações humanas carregavam sementes de cannabis por toda a Ásia até o norte da África e boa parte da Europa. Há registros do uso da planta na Sibéria há cerca de 5 mil anos atrás. Na Coreia e na Índia, cerca de 4 mil anos atrás, e, em países do norte africano, como Egito, Líbia, Argélia e Marrocos, há pelo menos 1.300 anos. As navegações transatlânticas, obviamente, trouxeram a maconha até o continente americano, muitas vezes em um contexto moralista, racista e até punitivista.

Uma convenção estabelecida há cerca de um século proibiu a maconha ao redor do planeta, mas um movimento recente de legalização para uso medicinal, ou mesmo para liberação total, tem acontecido a passos largos. Depois do pioneirismo holandês, países como Canadá, México, África do Sul e os Estados Unidos avançaram em algumas das formas mais permissivas de legalização individual para uso recreativo, enquanto em outros lugares a descriminalização prevê segurança para quem porta ou tem a planta em casa.

No Brasil, o atual governo moralista certamente dificulta um debate mais franco e honesto em torno da legalização da maconha para uso recreativo, muito embora o clima por aqui seja virtualmente perfeito para o cultivo de altíssima qualidade.

Se você é maconheiro e não aguenta mais viver por aqui, a lista a seguir é perfeita. Reunimos os principais países a liberarem a cannabis, de ilhas caribenhas até países dos dois lados do Atlântico, do frio ao calor e possivelmente até em uma ditadura comunista, esses podem ser os seus próximos destinos para se morar e fumar muito bem:

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João Barreto/Ilustração
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João Barreto/Ilustração

Canadá

Foram 20 anos de debates públicos até que, em 2018, o Canadá aprovou a legalização da maconha – com mais de 70% de apoio de sua população. Desde então, celebridades como o rapper Snoop Dogg e o ator nerd Seth Rogen abriram suas próprias marcas de cannabis por lá, vendendo flores e extrações – como o haxixe – das mais altas qualidades.

O Canadá é um dos 20 países mais desenvolvidos do mundo, com uma economia sólida, políticas verdadeiramente progressistas e uma democracia que funciona. Além disso, é uma nação com uma enorme colônia de brasileiros, que aceita nossos cidadãos em plenitude, inclusive incluindo-os em benefícios de seguridade social.

Sem contar que o país é de uma variedade natural absurda. No Pacífico Norte, o verão de Vancouver é ótimo para a prática de esportes aquáticos, montanhismo e outros esportes radicais. Para quem curte uma pegada mais urbana, Toronto, na costa leste, tem uma cena forte de rap e hip-hop, museus, zoológicos, galerias de arte, além de ser lar de um grande time de basquete, o Toronto Raptors. De lá, o turista pode pegar um carro e ir até as Cataratas do Niágara, uma das vistas mais impressionantes do planeta. É a oportunidade perfeita para queimar um baseado.

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João Barreto/Ilustração

Espanha

A proximidade com o Marrocos sempre facilitou o consumo de cannabis de qualidade por espanhóis. Se o país africano é conhecido por seus haxixes, a nação europeia se beneficiou ilegalmente do concentrado por muito tempo. Hoje, a maconha é descriminalizada na Espanha, mas não legalizada, embora as regras por lá sejam bastantes permissivas.

Desde 1991, clubes canábicos sem fins lucrativos atuam na Espanha, fornecendo a planta com qualidade para os cidadãos espanhóis. Não é ilegal fumar em locais privados, e o cultivo também só é permitido para essas entidades. Pode soar como os coffee shops holandeses, no entanto, você não pode comprar maconha por lá se não for membro de um desses clubes.

Mas, como estamos considerando que você vai morar lá, bem… seus problemas acabaram! Há mais clubes canábicos em Barcelona do que no resto do país, embora a capital Madri também seja bastante vivaz quando o assunto é a verdinha, então você não ficará desamparado em nenhuma das maiores metrópoles por lá

E viver na Espanha é foda! O país é vibrante artisticamente. A arquitetura de Gaudí é admirada em todo o planeta, a música tradicional e contemporânea é potente, e a gastronomia tem a mistura perfeita entre o ancestral e o que há de mais contemporâneo, seja em técnicas na cozinha ou em exploração de diferentes paladares.

Nem precisamos dizer que, no verão, Ibiza bomba com uma cena de música eletrônica de causar inveja e, mesmo no inverno, o país não tem temperaturas muito baixas em suas regiões mais ao sul. É um bom momento para viajar até Jerez de la Frontera, berço do flamenco e terra de alguns dos melhores vinhos do mundo. Bem próximo do Marrocos, é uma região bastante permissiva, onde turistas relatam ser possível fumar um na rua com tranquilidade – mesmo na frente de policiais. Ah, como deve ser bom ter liberdade…

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João Barreto/Ilustração

República Tcheca

Reportagem publicada no site Euronews no último mês de julho crava que a República Checa será o próximo grande pólo da maconha na Europa. Com o Partido Pirata tendo chances de vitória nas eleições de outubro, espera-se que as leis em relação à erva fiquem ainda mais brandas em um futuro muito próximo.

Atualmente, a maconha medicinal é legalizada no país, o consumo em casa é descriminalizado, e você ainda pode ter até cinco plantas – embora haja a possibilidade de você ser denunciado e multado em 580 euros. No entanto, as chances são bem baixas, já que a República Checa é o lugar com o maior número de jovens com até 34 que assumidamente consomem cannabis, 25% do total, enquanto a estimativa mais recente diz que pelo menos 550 mil tchecos cultivam maconha.

Por lá, a brisa pode ser de alto nível. Entre os meses de maio e junho, a capital Praga realiza seu festival de primavera dedicado à música clássica e ao jazz, um dos mais importantes de toda Europa.

Diversos “beer gardens” estão espalhados por Praga, parques a céu aberto – algumas vezes com palcos e telões – em que as pessoas se reúnem para tomar cerveja. Dizem que muitos pubs e bares menos turísticos também permitem que você acenda seu baseadinho, mas é de bom tom pedir autorização ao bartender.

Por lá, a cerveja é uma instituição nacional. Cada pessoa consome, em média, 142 litros da bebida por ano. E quer saber mais? Além dos beer gardens, a República Tcheca oferece alguns “beer spas”, onde você pode relaxar em uma banheira cheia de cerveja – enquanto toma uma caneca, é claro!

A República Tcheca é bem liberal em outro aspecto, a nudez. Muitas saunas e beer spas do país não permitem que você entre com roupas de banho, e são mais de 60 praias de nudismo em todo o país.

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João Barreto/Ilustração

Jamaica

O reggae pode fazer parecer, mas a maconha não é completamente legalizada na Jamaica. Lar dos rastafari, grupo religioso que acredita que o ex-ditador Etíope Hail Selassie I é a incarnação de Jesus Cristo, o país permite que os rastas façam uso cerimonial, embora o consumo em público por qualquer outra pessoa ainda seja proibido por lei.

Desde 2015, no entanto, a lei jamaicana vem avançando, permitindo a existência de dispensários para aquisição de cannabis para fins medicinais, além de liberar o cultivo de até cinco plantas por lar [spoiler: um cultivo bem feito de 5 plantas pode render ganja para o ano inteiro].

A Jamaica é um lugar de praias absurdamente bonitas, e um dos lugares que todo mundo deveria visitar é o Goldeneye. O nome te lembra alguma coisa? Se você pensou no filme de 007, é isso mesmo. Hoje um resort, o Goldeneye era a casa de veraneio de Ian Fleming, o criador do espião inglês James Bond, e para onde ele ia todos os anos justamente para escrever suas histórias.

Na capital Kingston, a casa em que Bob Marley viveu tornou-se um museu dedicado ao homem que melhor cantou sobre paz, amor e a união entre os povos no século 20. No nordeste, o Rio Grande é um dos melhores lugares para a prática de rafting. Perto dali fica a Lagoa Azul – sim, onde o filme de mesmo nome foi gravado –, um lago natural com praia e saída para o mar. Catch a fire!

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João Barreto/Ilustração

Trindade e Tobago

Bem pertinho da Venezuela, as ilhas de Trindade e Tobago são o lugar perfeito para montar uma república hoje em dia. Isso porque, desde dezembro de 2019, o país permite o cultivo de até quatro plantas por adulto. Isso significa que, virtualmente, você pode abrir uma eco vila com seus amigos em um terreno bem grande e cultivar uma mini floresta de ganja!

Historicamente, Trindade e Tobago só começou a pegar mal com a maconha por pressão internacional. Em 1915, uma lei criada no país regulamentava a produção e a venda para lojistas credenciados da erva. Ela foi banida da ilha 10 anos depois.

Independente do Reino Unido desde 1962, o país insular tem o terceiro maior PIB das Américas, perdendo apenas para EUA e Canadá. É uma nação vibrante onde convivem descendentes de africanos, indianos e europeus.

Indianos? É isso mesmo! Devido à sua colonização pelos britânicos, Trindade e Tobago recebeu um grande influxo de indianos, chineses e outros povos originários em um sistema de servidão por contrato, surgido após a abolição da escravatura, em 1833. Por isso, diversas celebrações hindus acontecem no país, entre eles o Diwali.

Para não sentir saudades do Brasil, um dos programas mais aguardados da vida em Trindade e Tobago é o Carnaval, que acontece na mesma época que o nosso, e com a mesma pegada de fantasias, música e desfiles de rua.

Se bater a larica, vá atrás do hiper tradicional “shark fritters”. Mais ou menos como nossa isca de peixe, o petisco consiste de pedaços de tubarão empanados e fritos em óleo. Alguém aí falou em cerveja?

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João Barreto/Ilustração

Coreia do Norte

Para terminar, aqui vai uma curiosidade. Assim como em muitos outros aspectos, não se sabe muito sobre o uso da cannabis na Coreia do Norte. Embora a nação tenha uma história ancestral com a maconha – inclusive utilizando o cânhamo como principal fonte de tecido na antiguidade –, a cortina de ferro imposta pela ditadura comunista faz com que pouquíssimas informações cheguem ao Ocidente.

No entanto, fontes da imprensa internacional, de Vice a Business Insider, além de órgãos internacionais de observação político-social, afirmam que a maconha é, no mínimo, tolerada na Coreia do Norte. Turistas que tiveram a oportunidade de viajar até o país asiático afirmam que as pessoas fumam seu baseado tranquilamente nas ruas de Pyongyang, e que a planta é usada em excesso por jovens do exército nacional.

É claro que morar na Coreia do Norte é virtualmente impossível para a maioria de nós. Mas, pensar nisso não gera pelo menos uma curiosidade de como são as coisas para os maconheiros norte-coreanos?

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